Jovens recorrem cada vez mais ao TikTok para aprender sobre dinheiro, mas especialistas deixam vários alertas

Comprar ações, investir em criptomoedas, ganhar dinheiro rapidamente ou descobrir a próxima empresa que pode disparar em bolsa. Estes são alguns dos temas que milhões de jovens encontram diariamente enquanto deslizam pelos vídeos do TikTok.

Um simples vídeo pode apresentar uma ação como uma oportunidade imperdível ou garantir que determinado setor tem potencial para transformar investidores em milionários. Mas até que ponto é possível confiar nos conselhos financeiros que circulam nas redes sociais?

Uma análise recente de 150 vídeos populares sobre finanças no TikTok concluiu que os utilizadores devem ter bastante cuidado antes de seguir recomendações de investimento encontradas na plataforma.

O estudo, realizado pelo site BrokerListings.com, analisou vídeos com pelo menos 100 mil visualizações cada um. Os conteúdos abordavam temas como ações, criptomoedas, dívidas, poupança e finanças pessoais.

Os resultados levantam algumas preocupações. Segundo a análise, mais de 70% dos criadores dos vídeos não apresentavam de forma clara experiência profissional relevante no setor financeiro ou qualificações que permitissem avaliar a fiabilidade dos conselhos dados ao público.

Além disso, mais de 60% dos vídeos analisados não explicavam adequadamente os riscos ou as possíveis consequências negativas dos produtos financeiros e das estratégias apresentadas.

Redes sociais tornaram-se uma importante fonte de informação financeira

A crescente influência das redes sociais nas decisões financeiras dos jovens já está a chamar a atenção dos reguladores europeus.

Ulf Linke, especialista em proteção dos consumidores da BaFin, a autoridade de supervisão financeira da Alemanha, considera que existe uma tendência clara para a procura de conselhos sobre investimentos nas redes sociais, especialmente entre os investidores mais jovens.

Um inquérito realizado pela BaFin em 2024 revelou que mais de metade dos investidores pertencentes às gerações Millennials e Z consideravam as redes sociais uma fonte fiável de informação financeira.

Mais preocupante ainda é o facto de cerca de 60% dos inquiridos considerarem as redes sociais uma boa alternativa ao aconselhamento financeiro profissional.

Esta realidade ajuda a explicar porque é que os chamados finfluencers, influenciadores que produzem conteúdos relacionados com dinheiro e investimentos, estão a ser cada vez mais acompanhados pelas autoridades.

Parlamento Europeu alerta para os riscos dos “finfluencers”

O tema chegou também ao Parlamento Europeu.

Em abril, os eurodeputados apoiaram a criação de padrões mínimos para os chamados finfluencers, chamando a atenção para riscos como publicidade escondida, informações enganosas, fraudes e conteúdos financeiros criados através de inteligência artificial.

Segundo os eurodeputados, as redes sociais tornaram-se uma das principais fontes de informação financeira para muitos jovens.

Também a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados, conhecida pela sigla ESMA, publicou orientações destinadas aos criadores de conteúdos financeiros.

A entidade alertou que as regras aplicáveis às recomendações de investimento podem também abranger conteúdos publicados nas redes sociais.

Isto significa que uma pessoa que recomenda um determinado investimento pode ter de identificar claramente quem é, distinguir factos de opiniões e revelar eventuais interesses financeiros relacionados com aquilo que está a promover.

Em determinadas situações, até afirmar publicamente que uma ação ou criptomoeda vai subir ou descer pode ser considerado uma recomendação de investimento.

A ESMA deixa ainda um aviso importante: utilizar uma frase como “isto não é aconselhamento financeiro” não significa automaticamente que o criador do conteúdo fica protegido das regras aplicáveis.

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Porque podem os vídeos curtos ser perigosos para quem investe?

Um dos principais problemas está no próprio formato das redes sociais.

Plataformas como TikTok e Instagram privilegiam vídeos curtos, rápidos e pensados para captar imediatamente a atenção do utilizador. No entanto, explicar corretamente um investimento pode exigir muito mais tempo.

James Barra, responsável pelos conteúdos e investigação da BrokerListings, considera que os vídeos de formato curto nem sempre permitem apresentar uma explicação equilibrada sobre produtos financeiros.

Um vídeo que promete uma forma rápida de ganhar dinheiro ou apresenta uma nova oportunidade de investimento como algo imperdível pode ser muito mais apelativo do que uma explicação detalhada sobre vantagens, riscos e possíveis perdas.

O problema é que os investimentos não têm o mesmo nível de risco para todas as pessoas.

Uma determinada ação pode representar apenas uma pequena parte da carteira de um investidor experiente. Mas essa mesma ação pode ser extremamente arriscada para um jovem que decide colocar uma grande parte das suas poupanças nesse único investimento.

Esse tipo de contexto e de explicação dificilmente cabe num vídeo de poucos segundos.

Nem sempre são os maiores influenciadores que representam o maior risco

Curiosamente, a análise da BrokerListings concluiu que os conteúdos mais preocupantes nem sempre são publicados pelos maiores influenciadores financeiros.

Os criadores com milhões de seguidores e as grandes parcerias comerciais tendem a receber mais atenção das autoridades e das próprias plataformas.

Por outro lado, criadores mais pequenos podem publicar conteúdos que alcançam rapidamente centenas de milhares de pessoas sem receber o mesmo nível de escrutínio.

O TikTok afirma possuir regras específicas para conteúdos relacionados com produtos e serviços regulados, bem como atividades comerciais.

A plataforma refere que toma medidas contra conteúdos que violam essas regras, incluindo a remoção de vídeos.

O TikTok também proíbe fraudes financeiras e afirma que grande parte dos conteúdos removidos por violação das suas políticas relacionadas com fraudes e burlas é eliminada de forma proativa, antes de ser denunciada pelos utilizadores.

Mas nem todos os conselhos financeiros nas redes sociais são maus

Apesar dos riscos, seria errado concluir que toda a informação financeira publicada no TikTok ou noutras redes sociais é falsa ou perigosa.

A investigação encontrou também criadores que partilham conteúdos úteis sobre gestão de orçamento, controlo de dívidas, criação de fundos de emergência e investimento a longo prazo.

Para muitos jovens, as redes sociais podem mesmo representar uma das primeiras oportunidades para aprender sobre finanças pessoais.

A educação financeira continua a ter pouca presença no ensino tradicional e muitas pessoas chegam à idade adulta sem saber como funciona um orçamento, uma taxa de juro, um empréstimo ou um investimento.

Além disso, nem todos aprendem estes temas em casa.

Por isso, conteúdos educativos bem explicados podem desempenhar um papel positivo.

Existem também canais especializados que adotam uma abordagem muito diferente daquela baseada em previsões rápidas sobre ações ou promessas de lucros elevados.

Um exemplo referido é o canal alemão Finanzfluss, criado por Thomas Kehl, antigo analista de banca de investimento.

O projeto construiu uma grande audiência através de conteúdos educativos sobre ETFs, investimentos, poupança e planeamento para a reforma.

Em vez de simplesmente dizer aos seguidores qual ação devem comprar, este tipo de conteúdo procura explicar como funcionam os produtos financeiros e quais são os fatores que os investidores devem considerar.

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Como identificar conselhos financeiros pouco fiáveis na internet?

Os especialistas recomendam que os utilizadores comecem por analisar cuidadosamente quem está por detrás do conteúdo.

Um criador credível deve identificar-se claramente, disponibilizar informações de contacto verificáveis e explicar qual é a sua experiência profissional na área financeira.

Também é importante perceber se existem possíveis conflitos de interesses.

Por exemplo, o criador recebe dinheiro para promover determinada empresa? Recebe uma comissão sempre que alguém cria uma conta através do seu link? Tem investimentos nos produtos que está a recomendar?

A existência de uma parceria comercial não significa necessariamente que o conselho seja falso ou incorreto. No entanto, esse tipo de relação deve ser devidamente divulgado.

Desconfie de promessas de dinheiro fácil

Outro dos principais sinais de alerta são as promessas de rendimentos elevados sem qualquer explicação sobre os riscos.

Frases como “esta ação vai explodir”, “última oportunidade para comprar” ou “vais arrepender-te se não investires agora” devem levantar suspeitas.

Os especialistas aconselham os investidores a não tomarem decisões por pressão e a evitarem o chamado medo de ficar de fora, conhecido internacionalmente como FOMO.

A urgência artificial é uma das técnicas mais utilizadas para levar as pessoas a agir rapidamente sem analisarem corretamente a situação.

Também é importante desconfiar de conteúdos que mostram constantemente carros de luxo, hotéis exclusivos, viagens caras e outros símbolos de riqueza como forma de promover uma estratégia de investimento.

A mensagem implícita costuma ser simples: siga este método e poderá ter o mesmo estilo de vida.

Mas a realidade dos investimentos é muito mais complexa.

Verifique sempre a informação antes de investir

A ESMA recomenda que os consumidores comparem a informação encontrada nas redes sociais com outras fontes antes de tomarem decisões financeiras.

Se um vídeo faz afirmações sobre uma empresa específica, pode ser útil consultar os relatórios oficiais da companhia e procurar informações em meios de comunicação financeiros credíveis.

Os investidores também podem consultar informações publicadas pelas autoridades reguladoras europeias e nacionais.

Outra medida importante é verificar se uma empresa ou pessoa que oferece serviços financeiros está devidamente autorizada para exercer essa atividade.

Os reguladores nacionais disponibilizam registos que podem ajudar os consumidores a confirmar se determinada entidade está legalmente autorizada.

Do TikTok ao investimento em poucos minutos

Talvez um dos maiores perigos esteja na velocidade com que tudo pode acontecer atualmente.

Uma pessoa pode assistir a um vídeo no TikTok que recomenda várias ações, perguntar a um chatbot de inteligência artificial se esses investimentos parecem interessantes e, poucos minutos depois, abrir uma aplicação de negociação e investir dinheiro real.

Todo o processo pode acontecer numa questão de minutos.

Esta facilidade tornou o acesso aos mercados financeiros mais democrático, mas também aumentou a importância de pensar antes de agir.

Conclusão: um vídeo viral não deve substituir uma decisão bem informada

As redes sociais podem ser uma ferramenta útil para aprender sobre dinheiro, poupança e investimentos. No entanto, popularidade não é sinónimo de credibilidade.

Um vídeo com milhões de visualizações não significa que o seu autor tenha conhecimentos suficientes para aconselhar outras pessoas sobre o destino das suas poupanças.

Antes de seguir uma recomendação encontrada no TikTok, Instagram ou qualquer outra plataforma, é importante investigar quem está a dar o conselho, perceber se existem interesses comerciais e, sobretudo, analisar os riscos.

Quando está em causa dinheiro real, promessas de lucros rápidos e oportunidades “imperdíveis” devem ser encaradas com especial desconfiança.

A informação pode chegar ao utilizador em segundos, mas uma má decisão financeira pode ter consequências durante muitos anos.

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